Origens:  O Sonho encandado de Edgard Moraes

Criado a partir de uma canção do célebre compositor de frevos pernambucanos, o Bloco da Saudade surgiu e consolidou-se com a proposta de reviver os carnavais líricos da primeira metade do século passado.


Em 1962, imbuído de um espírito nostálgico dos carnavais da primeira metade do século XX, o compositor Edgard Moraes compôs a marcha Valores do Passado, homenageando 24 blocos pernambucanos já extintos. Na letra da canção, o autor idealizava o “Bloco da Saudade”, uma agremiação que tomaria as ruas do Recife, revivendo aqueles inesquecíveis grupos carnavalescos, representantes de uma manifestação cultural do Carnaval Pernambucano que estava desaparecendo e sendo esquecida.


Eis que, em 1973, onze anos depois de Edgard Moraes ter composto a canção, um grupo de amantes do Carnaval, encabeçado por Antônio José Madureira “Zoca” e Marcelo Varela, apostou com o compositor que criaria o Bloco da Saudade e que com ele reviveria os antigos carnavais, cuja tradição encontrava-se praticamente perdida. O hino seria exatamente o frevo Valores do Passado.


Madureira e Varela cumpriram sua promessa e colocaram, no Carnaval de 1974, o Bloco da Saudade pela primeira vez na rua, desfilando pelo bairro do Cordeiro. Ainda sem o característico abre-alas (tradição dos blocos de pau e corda que só seria reintroduzida pelo Bloco da Saudade anos depois), os integrantes fundadores do bloco trouxeram de volta a tradição dos blocos de pau e corda ao Carnaval do Recife e de Olinda.


Em 1980, assume o destino do Bloco um outro grupo diretivo que continua o trabalho do anterior, tendo à frente Izabel Bezerra – atual presidente – que, juntamente com Amilcar Bezerra e Luis Moraes Mota, colocou a agremiação na rua naquele carnaval. Nos anos seguintes, Euda Brasil (in memoriam) se juntaria ao grupo que comandaria os destinos do bloco a partir de então. O apoio da Associação Atlética do Banco do Brasil – AABB, que cedeu o salão do clube para os acertos de marcha nas semanas que antecedem o Carnaval, foi de grande importância para a consolidação do prestígio do Bloco da Saudade neste período.


Graças à semente plantada pelo Bloco da Saudade no Carnaval do Recife, o sonho de Edgard Moraes e dos jovens carnavalescos de ressuscitar o gênero musical marcha-de-bloco como manifestação de rua rendeu frutos inestimáveis. Desde o seu primeiro desfile, a agremiação vem se firmando a cada ano como uma entidade fundamental na recuperação da antiga tradição dos blocos de pau e corda, tendo estimulado inclusive a proliferação de um número crescente de novas agremiações, algumas delas, adotando nomes de antigos blocos. Como exemplo, temos: Nem Sempre Lily Toca Flauta, Aurora de Amor, Um Bloco em Poesia, Flor do Eucalipto, Sinta Azul, Bloco Esperança, Flor da Vitória-Régia, Bloco das Ilusões, Cordas e Retalhos, Confete e Serpentina, Pára-Quedista Real e Eu Quero Mais, entre outros.


Até hoje, sem nenhuma subvenção oficial, o Bloco da Sai às Ruas do Recife e Olinda levando aos foliões marchas de bloco antigas e atuais, com o seu coral feminino e orquestra de pau e corda. As cores do bloco são o encarnado, o azul e o branco e a cor neutra entre as duas cores elementares usadas na cultura popular do nordeste.