Frevo de Bloco:  Vem Escutar, Nossa Linda Canção. Por Antônio José Madureira "Zoca"

“O apito tocou
O acorde soou
A orquestra vai tocar a introdução...”

Estes são os primeiros versos da Evocação Nº 2. Neles, Nelson Ferreira descreve, em poucas palavras, como se inicia a execução de um frevo de bloco. Vale salientar que também é conhecida e divulgada como marcha de bloco a música dessa agremiação.


No alvoroço das ruas, nos dias de Carnaval, o diretor da orquestra dá o sinal de alerta aos músicos e ao coral com o apito – todos ficam atentos. A orquestra ataca o acorde inicial, o surdo, com uma única pancada forte, serve de guia para o andamento da composição a ser tocada. A introdução, feita em uníssono por todos, tem um caráter animado, impulsivo, lembrando de perto o espírito do frevo que, em seguida, irá contrastar com a linha melódica cantada, mais sóbria, quase sempre em tom menor. Os versos de uma marcha de bloco são líricos, nostálgicos, relembrando o passado, evocando pessoas e fatos. Outras vezes são agressivos, deixando transparecer a rivalidade existente entre uma e outra agremiação. De acordo com o seu conteúdo poético, as marchas recebem diversas definições, como “marcha regresso ou marcha de encontro”, etc.


Enquanto o frevo é executado por uma banda de música ou uma orquestra de metais, bem mais reduzida, a marcha de bloco é acompanhada por uma orquestra que devido à sua formação peculiar foi batizada de “Orquestra de pau-e-corda”, isso porque ela traz em sal composição instrumental uma quantidade expressiva de violões, cavaquinho, bandolins, banjos, violinos, contra-baixos, flautas, clarinetes, saxs, bombardinos, pandeiro e surdo. Os instrumentos de sopro, como podemos observar, devem ser de um timbre brando para não abafarem as cordas.


Atualmente, cremos que devido às largas avenidas, por onde os blocos são obrigados a desfilar, a assustadora poluição sonora das ruas e também a situação econômica em que sobrevivem estas agremiações, impossibilitando-as a contratação de um bom número de instrumentistas, é que os  blocos vêm, sistematicamente, incorporando às suas orquestras instrumentos de timbres mais fortes, abandonando assim os mais suaves e de certa forma, descaracterizando-as.


O frevo, descendente direto dos dobrados das corporações militares, polcas e maxixes, em outras épocas já foi cantado. Hoje, ele é essencialmente uma música instrumental. Enquanto que a marcha de bloco reporta as jornadas dos pastoris, serestas e saraus familiares, necessita de um coral formado por vozes femininas para entoar os seus versos. Os blocos não fazem o “passo” como os clubes de frevo, pois devido ao caráter marcial de suas canções, seus cordões fazem manobras e evoluções, trazendo à sua frente não um estandarte de samba, etc. e sim, um dístico ou distintivo, também chamado de Abre-alas com seu nome a data de sua fundação.


Do grande número de blocos que existiam, poucos são os que ainda desfilam pelo carnaval, como Madeira do Rosarinho, Inocentes do Rosarinho, Rebeldes Imperial, Batutas de São José, Banhistas do Pina, Diversional da Torre, Flor da Lira, Bloco do Piu-Piu e Bloco da Saudade.


Muito antes de o carnaval chegar, os blocos promovem, em suas sedes, encontros para os seus associados. Nestes encontros, os compositores apresentam as suas mais recentes composições. O coral e a orquestra ensaiam as antigas e as novas marchas. A estes ensaios é que os foliões dão o nome de acerto de marcha.


*Zoca Madureira é músico, compositor e fundador do Bloco da Saudade.
Texto publicado no disco Frevo de Bloco, lançado em 1980.